A luta ainda não tem vencidos nem vencedores, mas o simples facto de alguém querer justificar a necessidade de um combate mortal já me deixa irrequieto.

As histórias que chegam desassossegam e eu nunca gostei de ser um mero espectador. Corre-se o risco de morrer por inanição.

Quem está deste lado também vive estas guerras que perturbam, não só porque a paz fica frágil, mas também porque – mesmo longe – é possível ver a cor do sangue, sentir o cheiro da morte, ouvir a revolta, a incompreensão, o sofrimento e a dor. Há fotografias e imagens que nos trazem essa verdade que existe, que está mesmo a acontecer e que não pertence a um enredo de um filme de ficção, mas que irá ilustrar o livro da História dos Homens.

E que história queremos contar amanhã, no próximo ano ou no próximo século? Que no Natal de 2023 o mundo assistia a várias guerras pela televisão? Que lá longe se mediam forças? Que os inocentes tombavam em lugares remotos. Que uns assistiam, enquanto outros morriam?

Se “todos os conflitos são baseados no engano” (Sun Tzu, A arte da guerra) porque não se empenham em desfazer esses enganos?

É uma história triste demais. Como me poderei sentar à mesa da Consoada e fingir que estas guerras não existem? Ou esquecer que estas famílias ficaram com espaços vazios à mesa… (se é que têm mesa)!

Para mim, este será um Natal desassossegado. Ficarei à espera que uma Luz nos salve. 

Construam o vosso Natal! 

António Travassos

(Médico Oftalmologista; OM n.º 15373/C-3334)

14 Responses

  1. O artigo do Dr. António Travassos espelha a realidade actual do mundo. E como será o Natal de 2024? Temo que, com todos os fundamentalismos instalados, seja uma repetição deste, se não houver HOMENS com a "visão" natural e intelectual. A visão natural, o Dr. António Travassos ainda consegue curar, mas a visão intelectual…. é muito complicado!

  2. Estimado Dr. Travassos: En estos tiempos que relata magistralmente y de un modo reflexivo, todos estamos tristes y extrañados de que ocurran estas guerras sin sentido.
    Tambien en nuestras casas tenemos nuestra propia trajedia, cuando falta uno de nuestros pilares fundamentales.
    Pediremos con fe que lo que tenga solución no se demore, y lo irresoluble nos consuele con la esperanza de volver a vernos.
    Reciba un cordial saludo, con el aprecio y gratitud de siempre.
    Conchita Santana

  3. Dr. António Travassos, boa tarde.
    É sempre com muito agrado que leio, as suas palavras. Mais uma vez ilustrou a realidade da vida, que temos e estamos a passar. Deus o continue a iluminar, na sua vida e na sua tão nobre especialidade como oftalmologista.
    Desejo-lhe, a si, á sua família, bem como a toda a sua equipa da clínica, um Feliz Natal e que o Novo Ano vos traga tudo de bom, com muita saúde.
    Um bem haja por tudo.
    Casimiro Silva

  4. Um texto lúcido, inconformado, contagiante, do Dr. António Travassos. Lê o trágico quotidiano do mundo e, no seu amplexo humanista, desadormece consciências anestesiadas pelas demissões e indiferenças. Por isso o integro nos pensamentos que, sem cálculo ou tibieza, ais amigos dirijo nesta sequência de Festas.
    José Manuel Mendes

  5. Exmo. Senhor Professor Doutor António Travassos.
    É com enorme prazer que leio sempre as suas mensagem.
    Um texto nobre que relata a realidade do mundo em que vivemos. «Uma grande tristeza»
    Que Deus o ilumine, na sua vida pessoal e profissional.
    Votos de Um Santo Natal, repleto de esperança, saúde e felicidades extensivos à sua Família e a toda a maravilhosa equipa do Centro Cirúrgico.
    Um bem haja
    Zezinha e Romana Amaral
    Um

  6. Prezado dr
    Permita que me sente na mesa do seu desassossego e que para ela leve a lembrança da guerra civil de Espanha que o meu avô João no meu Alentejo me contava;deixe que leve as recordações da segunda guerra mundial que ouvia numa grande telefonia relatada pelo Fernando Pessoa e deixe ainda que também leve uma guerra por mim combatida na distante África.
    As guerras de hoje deixam-nos assombrados não pela sua essência mas por nós entrarem casa adentro e nos fazerem duvidar do homem e da sua feroz natureza.
    Milénios de história tornaram o homem mais senhor do conhecimento,mais culto ,mais convivente,frequentador dos concertos mas não conseguiram que deixasse de ser lobo do outro homem.
    É está a nossa história como habitantes da Terra .
    Ao ler as reflexões do dr lembrei-me do padre António Vieira na sua descrição da guerra com a diferença de ela agora entrar pelas nossas casas diariamente e nos fazer mais que espectadores participantes
    assombrados

  7. Excelente reflexão
    É impossível ler e ficar indiferente – somos naturalmente forçados a parar e pensar no que poderemos fazer..
    Obrigado pelo alerta tão profundo..

  8. Subscrevo em absoluto a sua mensagem.
    Espero voltar a vê-lo,mas se possível fora dessa maravilhosa casa.
    Passei por aí para uma cirurgia da minha mulher, feita pelo Doutor.
    A todos os amigos digo:
    Oftalmologia, CCC António Travassos.

  9. Boa tarde.
    Sr. Dr. Antônio Travassos obrigada pela reflexão.
    Sim, que cores/imagens estas que nos enche as retinas e nos invade a mente com a celeridade que o universo nos ajuda a todos ficar desassossegados. Que a estrela que outrora guiou alguém ilumina a alma, o coração e a mente daqueles que nos desassossegam.
    Um Feliz Natal para toda a equipa.
    Feliciano

  10. Caro Dr. TRAVASSOS.
    Compreendo a sua inquietação, porque todas as guerras não tem sentido, e diz o ditado que só sabe das guerras quem vive nelas, e porque também passei por uma quando era um jovem, junto o seu desejo e inquietação ao meu, acabem com todas as guerras.

  11. Fico muito sensibilizado, por pessoas com a estatura do Dr. António Travassos, terem tempo e capacidade para refletirem sobre estes temas.
    Um grande abraço e a minha contínua admiração.
    José Mota

  12. EXCELENTE.
    CONTÍNUA ADMIRAÇÃO.
    BEM-HAJA POR CONSEGUIR REFLETIR SOBRE ESTES TEMAS.
    José Mota

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