Na infância, as preocupações com a alimentação são as mais frequentes, seguidas por problemas do sono, como dificuldades em adormecer ou pesadelos, e a ansiedade da separação, entre outros. Apesar dos sintomas destas perturbações (por vezes) serem aceites como normais, é crucial reconhecer o impacto significativo que pode ter no desenvolvimento infantil

O período entre o nascimento e a entrada na escola primária é – frequentemente – considerada uma fase feliz e despreocupada. No entanto, é surpreendente a quantidade significativa de bebés e crianças que enfrentam desafios importantes de saúde mental. Compreendendo a importância vital da deteção e intervenção precoce nessa faixa etária, tem surgido, nas últimas décadas, uma crescente preocupação com a saúde mental infantil.

Vemos reportado na literatura como sendo frequentes as perturbações do sono, alimentação, regulação emocional, processamento sensorial e de comportamento, com taxas de prevalência a atingir os 25 % nos problemas alimentares ou 23% nos problemas de sono moderados. A maioria destes problemas têm impacto no desenvolvimento da criança, tornando-as também mais vulneráveis para o desenvolvimento de obstáculos emocionais e de saúde mental ao longo da adolescência e na vida adulta.

Nesta faixa etária, as crianças não possuem as mesmas competências cognitivas, emocionais, e verbais que as crianças mais crescidas ou os adolescentes, pelo que a família é um alicerce fundamental para o diagnóstico e posterior tratamento. Também as abordagens são diferentes das utilizadas em crianças mais velhas, sendo frequentemente necessário a observação da interação cuidador-bebé, sua separação e posterior reunião ou mesmo observação direta na creche ou em momentos chave do problema, como por exemplo, uma refeição.

Ansiedade transmitida

Nos dias de hoje, os pais veem-se imersos numa rotina frenética, com jornadas laborais cada vez mais extensas e contando com uma rede familiar mais limitada. O desafio de chegarem a casa exaustos, privados de uma noite seguida de sono há meses, e ainda cuidar de um bebé exigente, aumenta inevitavelmente os níveis de ansiedade dos adultos que moram em casa. De forma involuntária, essa ansiedade acaba por ser transmitida para os mais pequenos, exacerbando por sua vez as dificuldades iniciais das crianças, criando um ciclo vicioso, que precisa de ser interrompido.

Pela especificidade e importância da patologia da primeira infância, existe um manual dedicado às doenças de saúde mental dos zero aos cinco anos. Este manual serve como referência fundamental para os profissionais realizarem diagnósticos, orientando posteriormente as decisões de intervenção com base em evidências científicas consolidadas.

Este manual descreve uma imensidão de quadros clínicos, pelo que abordaremos apenas os grupos que requerem atenção mais frequente. Ao abordarmos as perturbações do neurodesenvolvimento, que englobam tanto atrasos globais como específicos do desenvolvimento, a perturbação do espetro do autismo, a perturbação de hiperatividade e défice de atenção, entre outras, observa-se uma prevalência estimada de 15% nos países desenvolvidos.

No entanto, estes diagnósticos nem sempre são estabelecidos antes dos 5 anos de idade. A maioria destas doenças são tratáveis mas não curáveis, enfatizando a importância da intervenção precoce e intensiva para bebés e crianças com estes diagnósticos. Existe evidência científica que a abordagem multidisciplinar psicossocial melhora um número significativo dos casos.

As perturbações da regulação do processamento sensorial (PRPS) caracterizam-se pela dificuldade em processar o input sensorial, envolvendo um ou mais sentidos (táctil, visual, auditivo, olfativo, vestibular, paladar e propriocetivo) a partir dos 6 meses de idade. Por exemplo, em certas crianças que rejeitam determinados alimentos, devido à sua textura ou consistência, sendo comummente consideradas “esquisitas” ou outras que são excessivamente “sensíveis” aos barulhos ou luzes é fundamental considerar a possibilidade de uma PRPS, que pode melhorar com intervenção específica.

Dentro das perturbações de ansiedade e do humor destaca-se a perturbação de ansiedade de separação por ser, habitualmente, muito limitativa para as crianças e os seus principais cuidadores. A ansiedade de separação é um processo normativo que emerge pelos 8 meses de idade, persistindo geralmente até aos 24 meses, atingindo o seu pico entre os 10 e 18 meses. Este fenómeno reflete o resultado positivo de uma vinculação saudável. Nesta perturbação, as crianças demonstram um sofrimento recorrente e excessivo em separar-se dos principais cuidadores, mesmo em momentos decisivos como a ida para a escola.

As crianças podem ser incapazes de ficar sozinhas, manifestando, por vezes sintomas físicos durante a separação ou antecipação da mesma. A abordagem terapêutica varia de acordo com a idade das crianças, sendo que, as intervenções comportamentais ou cognitivas comportamentais têm demonstrado eficácia no tratamento das perturbações de ansiedade. Novamente, é crucial iniciar o tratamento o mais cedo possível após o diagnóstico para maximizar resultados positivos.

Devemos ainda sinalizar os problemas do sono, alimentação e choro que são bastante comuns em bebés e crianças pequenas, muitas vezes situando-se dentro dos limites normativos para a idade. No entanto, quando estes problemas são intensos e pervasivos o suficiente para serem classificados como alguma perturbação, podem impactar negativamente o funcionamento do bebé/criança e/ou da família. Dificuldades em adormecer, despertares frequentes durante a noite, ou a ocorrência de pesadelos, se ocorrerem ocasionalmente podem não ser considerados como uma perturbação. Contudo, quando são regulares e causam sofrimento podem ser enquadrados numa perturbação de insónia, de despertares noturnos ou de pesadelos. 

A terapia comportamental é uma intervenção baseada na evidência que pode ser usada para diversos problemas do sono, sendo possível utilizar diferentes estratégias, dependendo do tipo de família e do bebé/criança.

Problemas com a alimentação

De sublinhar que as queixas com a alimentação, estão entre as que mais frequentemente levam os pais a procurar ajuda nos cuidados de saúde primários. Aproximadamente 25 a 40% dos bebés são referidos pelos cuidadores como tendo problemas relacionados com a alimentação. As perturbações do comportamento alimentar nesta idade podem manifestar-se como perturbação alimentar de excesso, défice ou atípico e, para ser considerada como perturbação, as dificuldades precisam de ser recorrentes e ter impacto negativo na vida da criança e/ou sua família. É importante perceber com clareza qual o tipo de problema alimentar e tentar compreender a sua etiologia para conseguir individualizar a intervenção.

Em suma, as perturbações de saúde mental da primeira infância são mais comuns do que se percebe, sendo muitas vezes normalizadas e por isso não recebem a ajuda necessária no tempo certo. Embora algumas perturbações não possuam, à data, tratamento curativo, é sempre possível melhorar a qualidade de vida da criança e de toda a família, através de intervenções adequadas, idealmente, o mais precocemente possível.

Reconhecer e enfrentar as questões de saúde mental na infância contribui significativamente para o bem-estar global da criança e para a promoção de um desenvolvimento saudável.

Catarina Amaral
(Médica, Pedopsiquiatra; OM n.º52547)

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