O planeamento familiar não é uma criação do século XX e dos movimentos feministas. A intenção existiu sempre, mas a opção só começou a ter eficácia garantida há pouco mais de 50 anos, com a criação da pílula oral. Até lá, a crença, a superstição e o ridículo geriam a natalidade
Existia a noção de que era necessário “bloquear a entrada da semente masculina” e inventaram-se teses, teorias e métodos. Por vezes roçavam o ridículo, noutros casos existia risco de morte. Há 50 anos, a pílula oral anticoncecional mudou tudo, trouxe a eficácia. Antes, o preservativo em latex já tinha sido popularizado pelos americanos. Até lá, valia quase tudo, desde suster a respiração durante a relação sexual, a saltar sete vezes depois do ato ou dormir ao ar livre, nos dias em que não havia luar. A intenção foi sempre a mesma: evitar a gravidez.
As plantas tiveram um importante desempenho nesta tentativa de evitar múltiplas gravidezes e cada povo tinha as suas crenças. Os antigos gregos e romanos escolheram o poejo e o método recomendado passava por beber chá de poejo para induzir o aborto e a menstruação. O excesso acabava por ser tóxico, envenenava e matava mulheres por falência múltipla de órgãos. A erva “renda da rainha” também conhecida por cenoura selvagem foi outra opção.
Hipócrates chegou a descrever o uso desta erva, pelo poder das sementes que bloqueavam a síntese de progesterona, pelo que funcionava como uma espécie de “pílula do dia seguinte”. Na Ásia, recorriam ao mamão verde para prevenir a gravidez e as suas sementes chegaram a ser usadas como uma espécie de anticoncecional masculino, pela capacidade das sementes reduzirem a contagem de espermatozóides, um efeito que seria anulado se deixassem de ser ingeridas diariamente.
Os vários métodos ainda passaram por uma “engenharia” direcionada para os primeiros preservativos e, mais uma vez, são os relatos gregos que revelam pioneirismo, recorrendo às bexigas natatórias de peixes. Na Idade Média já se tentava o preservativo de linho, enquanto a China optava pelos que eram feitos em papel de seda. Nos séculos XV e XVI, a disseminação da sífilis exigiu outro engenho e arte. Terá sido nesta época que se fez o primeiro “ensaio clínico” para um preservativo feito em linho e tratado com ervas que deveriam prevenir esta doença, acreditando-se que a designação de “camisa de véus” possa ter nascido com este teste.
Os médicos dos reis também tinham a preocupação de evitar que os monarcas tivessem inúmeros filhos ilegítimos e desdobravam-se na procura de soluções. Preservativos feitos com o intestino de animais começaram a ser usados para evitar a gravidez, mas também para proteger da sífilis. No século XVIII, os intestinos de carneiro funcionavam como uma segunda pele e a França produzia-os e exportava-os em escala quase industrial. Um século depois, começou a dominar-se o processo de vulcanização da borracha, que abriu caminho para o preservativo em látex. No século XXI, a proteção das doenças sexualmente transmissíveis continua a estar assegurada pela “camisa”, na versão látex.