É médico oftalmologista por um «acaso», mas poderia ser físico, engenheiro ou matemático. José Galveia é curioso, perfeccionista e obsessivo q.b.. É diferente? «Sim, sempre me senti diferente, todos nós temos áreas em que não somos normais». Temos vindo a acompanhar esta viagem. Hoje, damos a conhecer o viajante
Integrou o grupo das raridades quando terminou o ensino secundário com 20 valores e prosseguiu essa singularidade quando conclui o exame da especialidade de oftalmologia com 19,9 valores. Sim, leu bem. O júri guardou uma décima como salvaguarda.
A Universidade Nova de Lisboa foi a sua escola, porque esta já tinha sido a escola dos pais, ambos médicos. José Galveia nasceu em Lisboa e foi ali que estudou e se formou. Coimbra apareceu mais tarde e foi «uma coincidência». Tal como a especialidade de oftalmologia, porque «quando se conclui Medicina, sabemos o que não queremos, mas temos dúvidas em relação ao que de facto gostávamos de seguir». Por isso investiu tanto no Harrison, «o pior exame que fiz na minha vida, porque passei um ano a estudar para um exame que não me fez crescer como pessoa, nem como médico, apenas me permitiu decidir o resto da minha vida». E o resto da vida foi a oftalmologia, mais uma vez, «por um acaso».
O balanço é positivo, porque esta é uma especialidade com «duas grandes qualidades, pela experiência humana e gratificante que se consegue na relação com os doentes, mas também porque tem uma componente científica e tecnológica muito marcada». Por comparação com a maioria das outras especialidades, «na oftalmologia é possível fazer uma medicina bastante objetiva, quer na componente de diagnóstico, quer na componente terapêutica e, nesta última, tem o imediatismo de qualquer especialidade cirúrgica.
Geralmente, conseguimos uma melhoria. E se isso é um alívio para muitos doentes, também é um grande alento para o dia-a-dia dos oftalmologistas». Foi isto que começou por perceber no Hospital Egas Moniz, onde fez o internato na especialidade. «Como acontece em todas as áreas, o conhecimento acumulado ajuda, mas falta sempre a experiência». Foi isso que procurou quando optou por trabalhar no Centro Cirúrgico de Coimbra.
«É preciso ver muitos casos diversificados e também ter alguém que nos mostre ou pelo menos que nos diga para percorrer determinados trajetos, evitando-se complicações e dissabores, o que acelera imenso a formação e, nesse sentido, eu tenho o Dr. António Travassos. Tive a sorte de o conhecer e não há ninguém que se compare a ele. Eu queria aprender com alguém que estivesse a esse nível e encontrei», mais uma vez, por acaso.
Por outro lado, «quando se encontra alguém que admiramos e a quem reconhecemos qualidades e esse alguém deposita em nós confiança, há sempre um acréscimo de motivação para fazer melhor. Obviamente que a minha imagem mental, muitas vezes, não corresponde aquela que o Dr. Travassos transmite de mim».
E que imagem é essa? «A de um viajante, é assim que me sinto. Uma pessoa que procura crescer, que quer aproveitar o momento e, ao mesmo tempo, tentar sempre melhorar o que consegue fazer». Tem presente que contém as doses q.b. de perfeccionismo e de obsessão, aliás, em dose dupla, porque as duas características existem para as qualidades e para os defeitos, «pode ser um tormento, eu sei, e um paradoxo. Juntas, fazem com que eu sinta necessidade de repetir múltiplas vezes os mesmos atos, o que também faz de mim uma pessoa teimosa» e, acrescente-se, socialmente, «bastante tímido».
À pergunta sente-se diferente, segue-se uma resposta certa e segura. «Sempre fui diferente, aprendi a sentir-me assim» E como se convive com a diferença, numa sociedade que tem dificuldade em aceitar o que não é comum, frequente e banal? «Todos nós temos áreas em que não somos normais, é isso que faz de nós pessoas diferentes. Isto sem analisarmos o material genético. Há áreas em que as pessoas se sentem mais e menos seguras, mas a diferença acaba por ser uma necessidade. Claro que a sociedade, enquanto massa populacional procura defender o que é comum e frequente. Apesar de todos diferentes, o homem, enquanto espécie, está programado para o preconceito, o que lhe dá uma vantagem evolutiva imensa, já que possibilita a tomada de decisões com pouca informação» ou não, porque se quisermos ter resultados diferentes da maioria das pessoas, é preciso fazer um trabalho diferente, se o resultado for igual ao que toda a gente faz, não há evolução.
«Há áreas em que a diferença é fundamental e a História prova isso mesmo. Ou seja, são as pessoas que pensam diferente que trazem evolução para a sociedade. Caso contrário continuaremos a fazer o que sempre fizemos». Aliás, se pensarmos bem e se racionarmos um pouco, concluímos facilmente que «uma coisa só tem valor se for diferente e se for rara. O que é comum não tem valor».
Da mesma forma que somos programados para o preconceito, também estamos desenhados para o hábito, «e é por isso que criamos as nossas zonas de conforto, onde fazemos aquilo que somos bons a fazer e que é fácil para nós fazer». O engenho está em «procurar o limiar dessa zona e ultrapassá-lo». Esta é uma das formas que melhor o define, «conhecer os meus limites e tentar ultrapassá-los, é a única forma que encontrei para crescer. Aprender a fazer algo fora da zona de conforto e aprender a estar confortável também aí. Isto é válido tanto para a cirurgia, como para falar em público ou para tocar um instrumento musical».
De entre uma série de acasos e outras tantas coincidências como se percebe se há ou não um destino a cumprir? «É importante valorizar a viagem, e a evolução e a progressão, gostar do caminho que se trilha. Acho que toda a gente procura um sentido para a sua existência. No meu caso, será tão simples quanto isto: se te dão capacidades, aptidões e potencial, o mínimo, é exigir alguma coisa em troca. Sou obrigado a pensar que estou aqui para fazer alguma coisa». Ser médico, também é isso. «Numa perspetiva egoísta e egocêntrica, sinto-me bem se conseguir fazer alguém sentir-se melhor, é um propósito e, na oftalmologia, são poucas as vezes em que eu tenho muito pouco ou nada para oferecer». Aliás, existem apenas dois conhecimentos que vale a pena ter: a medicina, porque somos humanos, e os conhecimentos universais, que são verdade aqui, na Terra ou em Marte, isto é, a matemática e a física».
É feliz? «Sou, muito. Não mudaria um milímetro ao meu trajeto. Estou a gostar da viagem».
Médico e Engenheiro?
É médico oftalmologista, mas quer cruzar a medicina com a engenharia com um propósito: criar um diagnóstico automático em oftalmologia. Esta é a ideia base e simplista do trabalho de doutoramento que prepara e que irá colocar em diálogo os conhecimentos da medicina e da engenharia biomédica. Claro que a matemática e a física estarão necessariamente presentes.
«Mais uma vez, o doutoramento é uma viagem e aconteceu por uma conjugação de oportunidades. Surgiu um problema que me estimulou e que me levou a pensar em automatizar alguns processos de análise de imagem e de diagnóstico». Isto é «associou-se a quantidade de dados que estão inexplorados, com a vontade de tirar conclusões mais amplas, quer em termos de patologias, quer em termos de resultados alcançados». Surgiu uma conjugação de oportunidades. «Há uns anos não o teria conseguido fazer, porque não estavam disponíveis as ferramentas computacionais que vão permitir “mastigar” os dados».
Há promessas para a criação de um diagnóstico automático em oftalmologia. Para quê? Para aumentar a segurança e o acesso aos cuidados de saúde. O trabalho de investigação há muito que superou a coincidência e o acaso. O futuro pode começar aqui. Quantos médicos conhece com doutoramento em engenharia?
Curiosamente, desde que o conheci numa consulta de substituiçao ao Dr. A.Travassos pensei comigo mesmo este homem que me parece tão timido,vai tornar-se alguem com muito valor nesta area da oftalmologia. Não desista porque a humanidade precisa de pessoas como o Sr. Que procuram com trabalho, nao se deitando debaixo da arvore que Ja plantaram, mas SEMPRE trabalhando mais e mais em prol da humanidade. Obrigado Dr. Jose Galveia.
Nas minhas últimas cirurgias feitas em 2015 , foi o 2 cirurgião, e fui assistida por ele várias vezes, sempre me dando força e coragem quando precisei ! Só posso agradecer o que o doutor fez por mim! Grande Médico! Grande homem ❤️
Gostei da entrevista e o entusiasmo que coloca na sua exposição levá-lo-a inevitavelmente ao sucesso na sua caminhada, para bem da oftalmologia portuguesa e principalmente dos doentes. Um abraço do colega. Paulo Cenicante.
O meu filho de 7 anos fez uma cirurgia recentemente com a equipa do Dr Travassos, e durante 2 meses não consegui perceber o que aconteceu realmente ao meu filho. A sabedoria do Dr Travassos é inversamente proporcional à sua comunicação .
Bastou uma única consulta com o Dr José e tudo ficou esclarecido, com simpatia,delicadeza e sensibilidade. Como mãe ansiosa fiquei mais tranquila e esclarecida. É nestes pequenos gestos que se distingue o Ser Humano na Sua Viagem… viagem essa que também passa pela música, “ a música é uma revelação superior a toda a sabedoria e filosofia” L. Van Beethoveen
Queria deixar o meu agradecimento e apreço pela sua atitude na consulta que para mim mãe foi a mais importante !
Um grande bem haja
Mafalda Casmarrinha
Agradecemos as suas palavras, mas não podemos deixar de estranhar a referência que faz, quando diz que “não consegui perceber o que aconteceu ao meu filho..” Efetivamente, o seu filho foi operado pelo Dr. António Travassos, numa situação de emergência médica e com prognóstico muito reservado. Contudo, tudo correu bem e as expetativas foram superadas, uma vez que bastou uma intervenção para resolver o problema. Estranhamos apenas que, depois de ter assinado o consentimento livre e esclarecido (uma vez que o seu filho é menor) afirme que não percebeu o que realmente aconteceu, porque deveria ter percebido tudo isso quando autorizou a realização da intervenção cirúrgica. Votos de uma boa recuperação para o seu filho.