A reabilitação de um cancro da mama exige intervenções que recuperem o bem-estar físico e a funcionalidade da mulher. O plano é obrigatoriamente personalizado e a fisioterapia ajuda a corrigir as alterações

Todos os anos surgem cerca 9 mil novos casos de cancro da mama em Portugal. Destes, apenas 1% é referente ao sexo masculino. Na mulher este é o tipo de tumor mais comum, com grande impacto quer pela sua possível gravidade quer pelo efeito que tem na imagem feminina.

De todos os diagnósticos, 91% dos casos necessitam de intervenção cirúrgica, seja para remoção total da mama, seja apenas parcial. Mas, em ambos os casos, consequentemente, irá existir formação de tecido cicatricial, diminuição da mobilidade da área afetada e – possivelmente – dor, o que levará a uma perda da funcionalidade das articulações adjacentes.

Sendo um dos principais objetivos da fisioterapia corrigir alterações do movimento e promover um aumento da funcionalidade, é fundamental uma intervenção pós-cirúrgica o mais precocemente possível.

No período pós-cirurgia, a fisioterapia revela ser de grande importância no trabalho da mobilidade de tecidos cicatriciais, na diminuição da dor local e das articulações envolventes, no aumento da mobilidade dessas mesmas articulações. Uma atuação profissional em todos estes pontos irá promover uma melhoria da funcionalidade e do bem-estar físico e emocional da mulher. Através de terapias manuais específicas que ajudam a mobilizar os tecidos moles, podem ser trabalhados os tecidos cicatriciais, libertando aderências, melhorando assim a mobilidade dos tecidos afetados e prevenindo a formação de fibroses.

Por outro lado, a existência de dor é um dos principais motivos para procurar ajuda na fisioterapia. Nestes casos, a dor é uma consequência do corte de tecidos, de um eventual edema que se possa ter formado ou da diminuição da mobilidade e estas queixas podem ser amenizadas por técnicas específicas de fisioterapia que promovem analgesia e conforto.

Alterações da mobilidade causadas por cicatrizes, pela dor, pelo imobilismo ou por diminuição da força devem ser trabalhadas e corrigidas através de técnicas de mobilização e alongamento. A diminuição da força e fadiga do membro superior afetado devem ser trabalhados com fortalecimento de músculos específicos, utilizando exercícios terapêuticos com cargas progressivas, promovendo a sua funcionalidade. A atividade física pode e deve ser mantida, ainda que de forma adaptada, uma vez que melhora a função cardiovascular, diminui a fadiga, aumenta a imunidade e promove o bem-estar físico e emocional.

É ainda frequente que após a cirurgia da mama surjam patologias associadas, tais como alterações posturais da cervical ou dorsal, ou até patologia do membro contra lateral por sobre uso. É fundamental a correção destas situações para que a mulher possa ter novamente qualidade de vida e retorne ao seu dia-a-dia da melhor forma.

A formação de linfedema (inchaço por alteração dos vasos linfáticos) no membro superior é uma complicação muito incapacitante, que resulta fundamentalmente da necessidade, cada vez menos frequente, de excisar gânglios linfáticos da axila. Também nestes casos, a fisioterapia pode atenuar e prevenir esta situação, através de técnicas de drenagem linfática manual, que podem ser combinadas com pressoterapia (drenagem linfática mecânica).

Ao nível respiratório, que tantas vezes é afetado em uma qualquer cirurgia, a fisioterapia pode melhorar a ventilação pulmonar com exercícios específicos de ventilação dirigida e expansão torácica. Acrescente-se ainda que nos casos em que existe necessidade de tratamento por radioterapia, a fisioterapia também pode ser uma aliada, ajudando a alcançar a mobilidade e amplitude do membro superior, necessários para o posicionamento correto do mesmo durante a sua aplicação, tal como também se revela muito útil ao minimizar as retrações tecidulares consequentes desta terapia.

Nos casos em que existe um processo de reconstrução mamária, a fisioterapia promove um ajuste correto dos tecidos à prótese ou enxertos tecidulares, moldando-os da melhor forma, para que a nova mama se assemelhe o mais possível ao lado contralateral.

A intervenção precoce da fisioterapia ainda pode ajudar a evitar as consequências de longo prazo, tais como, rigidez articular do ombro, fibrose dos tecidos moles intervencionados, que promovem dor, incapacidade funcional e, consequentemente, alterações impactantes no dia-a-dia destas mulheres.

Todas estas técnicas e possíveis intervenções devem ser feitas após uma avaliação individual. É fundamental criar um plano de intervenção personalizado às necessidades específicas de cada mulher, tendo sempre em consideração as suas alterações físicas e emocionais. A melhoria do movimento corporal, recuperação da funcionalidade e autonomia têm impacto direto na autoimagem e autoestima, sendo este um aspeto fundamental da intervenção do fisioterapeuta.

A intervenção da fisioterapia revela-se um fator essencial na reabilitação da mulher, devendo ser personalizada e iniciada o quanto antes, sempre que possível ainda antes da cirurgia.

Maria João Pereira
(Fisioterapeuta; OF n.º 10779)

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