Dentro da cabeça de cada mãe ou pai há um sem número de dúvidas a fazer pop out constantemente e essas dúvidas são tanto maiores, quanto maior for o desejo de cuidar bem e fazer o melhor pelas crianças. Para a pergunta “será que estou a ser um bom pai/mãe” não há uma resposta, há várias…

1. Qual é o som de duas mãos a baterem?

R.: O som de duas mãos a baterem é o som de duas mãos a baterem.

2. Qual é o som de uma criança a comportar-se mal?

R.: O som de uma criança a comportar-se mal é o som de uma criança a comportar-se mal.

3. Qual é o som da minha criança a comportar-se mal?

R.: É o som de “Eu não consigo controlar esta criança”, o som de “Eu devia ser capaz de”, o som de “Eu sou um mau educador”, o som de “Eu não sei o que fazer…”, o som de “Detesto esta criança”, o som de “Não devia estar a sentir-me assim”. O som do meu fracasso. (Coyne & Wilson, 2004)

Esta pequena história – inspirada nas práticas reflexivas do Budismo Zen – dá conta de uma forma de diálogo interno que é muito frequente nas mães e pais hoje em dia. Retrata as dúvidas, os medos, a exigência e a crítica que habitam secretamente nos cuidadores mais comprometidos em fazer o melhor pelas suas crianças. “Devo deixá-lo fazer o que me pede ou mostrar-lhe que não pode ser tudo como ele quer?” “Devo acalmá-la ou ralhar-lhe?” “Devo deixar que ele se aventure ou proibi-lo de ir ali?” Dentro da cabeça de cada mãe ou pai há um sem número de dúvidas a fazer pop out constantemente. E se é verdade que é impossível viver a parentalidade sem dúvidas e receios, é também verdade que estas dúvidas são tanto maiores quanto maior for o desejo de cuidar bem e fazer o melhor pelas crianças. De facto, nunca como hoje os pais se preocuparam tanto em fazer o melhor para os seus filhos e em procurar uma resposta à pergunta: Será que estou a ser um bom pai/mãe? O problema é que não há uma resposta a esta questão. Há várias, e ainda por cima únicas para cada criança. 

É importante ter consciência de que houve grandes mudanças de paradigma na sociedade que influenciaram a forma como tem sido entendida a parentalidade. Todos os pais educam os seus filhos enquadrados num determinado período histórico e ambiente cultural. Evoluímos, enquanto sociedade, na forma de definir o conceito de família: de entidade governada por uma autoridade parental, a família passou a ser definida como um ambiente acolhedor para o cuidado e a proteção dos direitos individuais das crianças. 

Desde o século passado que se generalizou aceitar que o melhor estilo parental é aquele que faz um bom balanço entre o afeto e a disciplina (designado como estilo autoritativo), por oposição a um estilo demasiado marcado pela imposição de regras e limites ao comportamento (conhecido como estilo autoritário), ou a uma parentalidade em que há elevadas expressões de afeto e aceitação da criança, mas poucos limites colocados ao seu comportamento (denominado como estilo permissivo ou indulgente). No entanto, o que é regra nuns casos pode ser a exceção noutros. 

Em certas culturas, o estilo autoritário pode ser entendido como sinal de uma parentalidade cuidadosa, afetuosa e mais benéfica para as crianças, por exemplo em contextos onde o crime e os perigos externos são muito elevados e a obediência aos pais pode ser a única forma de garantir a sua sobrevivência. Por outro lado, em sociedades que valorizam altamente a liberdade individual e as relações igualitárias entre os indivíduos, o uso de práticas impositivas disciplinares pode não ser bem aceite, sendo que a demonstração de afeto e um estilo comunicativo marcado pela aceitação e reflexão (que poderia ser designado de parentalidade indulgente) parecem ser as estratégias ideais para melhor gerir o comportamento das crianças/jovens e para promover a sua autoestima. 

Como se esta (in) determinação sociocultural não bastasse, as variáveis ou características individuais vêm complicar ainda mais a equação da parentalidade. É que de facto, no que diz respeito a relações humanas, a fórmula de tamanho único “one size fits all” raramente funcionará. Quer isto dizer que não há estratégias que resultem impreterivelmente com todas as crianças e com todos os pais.

Em primeiro lugar porque todas as crianças têm um determinado temperamento, uma história individual e uma forma de pessoalidade que as torna únicas. Em segundo lugar, porque os pais também têm uma certa forma de estar e de ser, estados emocionais, crenças e valores, igualmente únicos, que também entram na equação da parentalidade. E é nesta interação única entre crianças e pais que reside a resposta que determina um bom ou um mau ajustamento entre ambos. Vejamos dois exemplos simples: 

São inúmeros os exemplos que se poderiam dar sobre o melhor ajuste ao temperamento da criança e sugerimos, para aprofundar este tópico, consultar literatura sobre a abordagem ao comportamento das crianças pela perspetiva do temperamento (Thomas, Chess & Birch, 1968; Kristal, 2005; Allen, 2015, etc.).

Em suma, a equação é complexa e definitivamente não tem uma resposta matemática. Os pais com dúvidas que iniciaram a leitura deste texto à procura de respostas estão neste momento a deitar as mãos à cabeça, porque afinal ficaram ainda com mais dúvidas. Mas, caros pais, quem vos disse que duvidar é mau, que errar é imperdoável? Na verdade, o exercício da parentalidade só se percorre num caminho de muitas tentativas e outros tantos erros. Assumir uma dúvida é acordar para um estado mais alerta, de procura, e, consequentemente, de mudança. 

Não, não há fórmulas certas e inequívocas para se ser uma boa mãe ou um bom pai. Há, no entanto, princípios que nos podem guiar como faróis e nos quais nos podemos focar, sobretudo em alturas de maior tempestade. Cada família terá o seu próprio conjunto de princípios e valores máximos a nortear as suas escolhas e as suas ações, sobre os quais deve refletir. Existem ainda princípios gerais sobre os quais se compreendem as relações humanas, e, entre elas, as relações pais-filhos. Deixamos aqui um talvez-primeiro-princípio:

Se queremos influenciar o desenvolvimento da criança, como guias que lhe dão orientação, ou, melhor ainda, como jardineiros que cuidam de forma a que ela possa crescer saudável e atingir o seu máximo potencial, paremos para olhar melhor. Olhar melhor para a criança, para a pessoa que está dentro dela, com o seu temperamento e as suas características únicas, compreendendo o que ela precisa e o que nos quer comunicar. E também olhar melhor para nós próprios, para as pessoas que somos, enquanto cuidadores. As nossas tendências, os nossos valores, os nossos botões de impaciência, irritação, insegurança… as nossas fragilidades e as nossas necessidades. Porque nada disso pertence à criança ou pode ser atribuído a ela, e é importante que saibamos fazer essa distinção. Depois, olhemos enfim para a relação, tal como para uma dança: estamos a dançar em sintonia com a criança? Estamos a disfrutar da dança? Tudo começa com este olhar atento, despojado e sincero. Aproveitamo-nos de uma frase do Saramago para reforçar e expandir esta ideia: “Se podes olhar vê, se podes ver repara”. E depois, sim, retoma a dança. 

Sara Martins Leitão

(Psicóloga Clínica de Crianças, Adolescentes e Famílias; OP n.º 12181)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Li e Aceito a Política de Privacidade.

Política de Privacidade
Esta formulário recolhe o seu nome, e-mail e conteúdo para que possamos acompanhar os comentários colocados no site. Para obter mais informações, consulte nossa Política de Privacidade, onde você obterá mais informações sobre onde, como e porque armazenamos os seus dados.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.