A Medicina é um projeto cúmplice com a vida, enquanto esta tem a força necessária para viver. A Medicina é uma amálgama das outras ciências, é filosofia pura, biologia, bioquímica, física, matemática, mecânica, é a ciência de todos os outros aplicada à saúde de cada um.

Um Médico necessita de todos os outros, mas cada um dos outros só necessita do Médico quando está doente. Este princípio é desagregador e terrível para a saúde em geral, para o bem social, para qualquer Serviço Nacional de Saúde… E para cada um em particular, particularmente, quando está doente…

Gulbenkian fez uma avença genial com o seu Médico… Só lhe pagava quando tinha saúde. Se todos nós pensássemos assim e nos fosse dada a oportunidade de celebrar contratos semelhantes, qualquer sistema de saúde teria que ser gerido segundo novas formas de filosofia de gestão, a sociedade seria mais igualitária para todos e para cada um.

A Medicina seria mais o que deveria ser, interessante, competente, normalizada, as guidelines, seriam decididas no verdadeiro interesse do doente, cada profissional de saúde correria atrás da cenoura, sem pensar no capital, no partido que serve – sem as contradições do lucro e do dever.

A Medicina atual atravessa uma bolha, idêntica à da Construção Civil ou da Banca… A população terá que envelhecer e adoecer para que as unidades de saúde instaladas sobrevivam, mesmo que para isso, cada um seja forçado a viver sem vida. O negócio liquidará a eutanásia… A morte estará condenada a não morrer para que a “medicina ” sobreviva…

Avante a Medicina que salva os doentes da morte… Até que robôs com inteligência emocional, menos sofisticada e alheios ao interesse do capital, nos deixem morrer.

Saramago estava certo… Ao ensaio sobre a cegueira, seguirá o ensaio sobre a morte… A ressurreição está aí.

António Travassos

(médico oftalmologista)

21 Responses

    1. O revivalismos é um ato muitas vezes inconsciente, associado a filosofia, bem escrita, torna-nos muito mais "bonitos"

  1. Não sei si o DR. Travassos e , ademáis de grande oftalmologista, filósofo, científico com certeça de sim, matemático, biólogo, ou tudo a vez!!!.
    Os seus artigos, que leio com profundo interés pelo contenhido sempre e pela forma de escribir, deijam un fundo para meditar sobre a VIDA.
    Este de hoje e fantástico, mais terrivel na minha modesta opinião. Pensar e viver muitas veces esto do negocio da medicina e as vez precisar tanto dela, não e uma cuestião menor.
    Espero encontrar na vida muitos "Dr. Travassos", e menos intereses económicos na medicina que eu precise, a familia e os amigos.
    Fico agradescida conhecer ao Dr Travassos pesoalmente e valorar a sua atençao e a sua medicina fora do estrictamente monetario, e absolutamente en honestidade com o seu paciente.
    Um muito Feliz Ano para tudos os que tem a enorme sorte de trabalhar com esa filosofía!!!
    Abraço amigo, Çao

  2. Acho excelente o artigo escrito pelo Dr. António Travassos e que vai muito ao encontro da realidade que se vive!

  3. Uma profunda e continuada reflexão de um cientista – médico baseada na longa experiência de vida.
    Para mim, estar vivo não é importante mas sim o como estar vivo, com todas as faculdades indispensáveis ‘a qualidade do viver.
    Por isso, não faz, no meu entender, prolongar a vida se a mesma não puder ser vivida fora do tempo. Tempo que nos obriga a dominar o digital, a compreeder os novos valores socitais, a aceitar resignadamente a desigualdade e a indiferença social.
    Quando já não conseguir a integração social, prefiro o ocaso definitivo que me livrará do pesadelo, mesmo que não exista um Paraíso que me acolha.

  4. Uma maravilha de raciocínio. É um pouco duro ter que aceitar que o Sr doutor tem razão. Sinais dos tempos, diriam os mais idosos. Enfim, é a "vida" que temos para viver.
    Parabéns pelo artigo.

  5. O Dr. Travassos ,com inteligencia ,diz a boca grande ,o que o Povo ,diz à boca pequena:O "rei vai NÚ",não desarme Dr.Travassos ,e diga e escreva até que a voz lhe dôa:Bom ano Para si,força…..

  6. É raro depararmo-nos com texto tão denso e de tão grande alcance.
    Obrigado Dr Travassos por mais este contributo para que percebamos melhor o futuro que nos espera.

  7. Brilhante sob todos os pontos de vista. Nem podia deixar de ser de outra forma.
    O problema é que para muitos a ganancia cega.

  8. Prezado Senhor Dr. António Travassos,
    seu artigo vai causar muita discussão, porque vai gerar algum tipo de revolução. Inclui, na minha opinião, exactamente os problemas que já existem hoje e que se agravarão num futuro próximo. Doutor, ciência, tecnologia e paciente no foco de ser digno de ser vivido. A harmonia e o equilíbrio são muitas vezes postos de lado

    Sinto uma verdadeira competência social nas suas atividades e ações. O exemplo da "cenoura" é uma excelente indicação disso mesmo. A sua luta por um modo de vida equilibrado fala por si.
    No entanto, permanece a questão de como isto pode ser alcançado entre todas as disciplinas, porque o paciente quer viver numa existência digna. Se a tecnologia genética
    pode ajudar aqui? No entanto, a ética produzirá para o jogo do pensamento infinito como uma subdivisão da filosofia em conjunto com o aspecto religioso.

    Muito obrigado pelo seu relatório.
    Um bom Ano Novo 2019 para o Senhor Dr., sua filha Dra. Ana Sofia Travassos e toda a sua família.


    Fred Schmidt
    Praia do Carvoeiro

  9. Artigo muito bom, realista mas umas "modernices" que ultrapassam no meu entender a qualidade de vida para quem a vive e para quem está ao lado quando se tem alguém …….

  10. Muito bom o artigo só que no meu entender este prolongamento da vida por vezes não é acompanhado com qualidade de vida e que as vezes só se faz para estar no topo, para exibicionismo.
    Obrigada pelo contributo.

  11. Não tenho o privilégio de conhecer o DR. Travassos, mas tenho a certeza que é com Homens e médicos com esta clarividência que a vida será mais bonita.
    “A Medicina é um projeto cúmplice com a vida, enquanto esta tem a força necessária para viver”. (citado do artigo)
    Obrigada ao DR e à sua equipa por existirem e nos ajudarem a “ver” a vida com as verdadeiras cores da realidade.

  12. Sr. Dr. Travassos, muito obrigada!
    Obrigada pela " provocação" colocada quase de uma forma poética, pela ética, pelo "afastamento" crítico com que analisa a questão do até onde a Medicina deve prolongar a vida… Enquanto profissionais de saúde, somos "quase empurrados" a exercer a nossa profissão de uma forma "defensiva", o que nos levanta muitas questões…
    – Sem estes recursos técnicos este doente ainda estaria vivo? Mas se disponho destes recursos, será legitimo questionar se os uso ou não, até porque enquanto há vida, há esperança? Ao continuar a investir neste doente, estou a negar cuidados a outro doente (os recursos são escassos, logo há que rentabilizá-los), que provavelmente terá maior probabilidade de sobrevivência…

    Não é tema fácil de analisar e de decidir, mas que urge refletir sobre ele, penso que sim. Urge mesmo pelo bem de todos nós cidadãos! Acima de tudo, pela tranquilidade do cidadão e credibilidade dos serviços e dos profissionais de saúde.

    Mais uma vez, Bem-haja!

  13. Caro Dr Antonio Travassos
    Muito obrigada pela sua reflexão e como me induziu também a pensar na duração da vida vivida. Concordo consigo salvo no que respeita aos robôs. Também eles, ainda que com inteligência emocional, se renderao ao capital. Os “donos” dos robôs exigir-lhes-ao rentabilidade.. Portanto, mais vida sem vida.Com a agravante de se regerem por algoritmos, estatisticas, etc em que as emoções Dificilmente fazem pate dos parâmetros.

    Desejo-lhe um ano com a mesma clarividência e a competência que cura os seus paviente, em cujo grupo me incluo.
    Muito obrigada
    Maria do Carmo Lucas

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