Um mal a evitar, uma grande nuvem negra ou um momento de mudança e de oportunidades? É de certeza um momento de choque com o outro, mas os conflitos podem ser saudáveis. Temos de começar por arranjar 2 sacos

Certamente já deu por si a evitar situações “conflituosas” ou a sentir tensão perante a possibilidade de entrar em conflito. Verdade? E então, será esse o caminho para baixar a tensão nas relações, diminuir o cansaço e caminhar para a plenitude?

Há alguns entraves para atribuir outro significado ao conceito de conflito, na medida em que somos constantemente bombardeados/as com a ideia de que o conflito é um mal a evitar, a sua inexistência indica competência, está associado a mau comportamento e agressividade. E esta é a narrativa que vamos vivendo diariamente, no local de trabalho, na escola, em casa, onde repetidamente nos pintam o conflito como uma grande nuvem negra. Mas será mesmo assim? 

Durante alguns minutos, desafio-vos a pensar diferente e a imaginar o conflito como um possível aspeto positivo na nossa vida!

Um conflito é uma crise, e todas as crises são momentos de oportunidade! Vejamos: na sequência de uma perturbação da nossa adaptação e equilíbrio, as crises tendem a surgir e vêm sinalizar esses sintomas – algo que possa estar a ser desadequado ou desajustado na nossa vida, na nossa relação connosco, na nossa relação com outras pessoas… Assim, o nosso corpo e a nossa mente indicam-nos que algo não está bem e faz-nos parar, para que possamos repensar o nosso caminho, potenciando a possibilidade de mudança.

Podemos então olhar o conflito através de vários ângulos, vê-lo como algo que é sinalizador, como potência, transformação e mudança, é apenas um dos lados.

Num outro ponto de vista, se definirmos conflito como um encontro de ideias distintas, este passa afinal a ser o processo através do qual podemos baixar a tensão nas relações e criar novos caminhos. Passamos os dias muitas vezes com ideias e pensamentos nossos e, por receio do conflito, guardamos para nós, acumulando tensão e impedindo que esta se dissipe, retendo-a. A possibilidade de conversar e colocar à discussão as nossas ideias – ainda que estas possam ser diferentes das dos outros – abre espaço para 1) aliviar tensão, expondo os nossos pontos de vista e posicionamentos e 2) que novas ideias e novos caminhos possam surgir.

Um antídoto chamado conflito

A título de curiosidade, podemos até olhar o conflito como um antídoto para as relações onde há violência e controlo. Lembrando o que a colega Inês Pimentel (Terapeuta Familiar e de Casal) dizia em uma formação sobre violência entre parceiros íntimos, enquanto no conflito o poder é gerido de uma forma horizontal com mais disputa e possibilidades, na violência o poder é gerido de uma forma vertical (e guardemos esta ideia que será útil recordar mais adiante, quando pensarmos em respostas ajustadas). 

A violência é uma resposta desadequada às nossas inseguranças e à acumulação de tensão (zanga, raiva, tristeza, …). Muitas vezes é difícil dizer ao outro o que sentimos, que estamos tristes, que não concordamos com a forma como ele ou ela fez aquilo, que estamos com ciúmes e não nos sentimos seguros na relação, que temos medo da perda, entre outras coisas que nunca fomos ensinados a dizer ao outro.

O conflito é o momento do choque, e pode ser o momento em que dizemos ao outro, idealmente através de uma comunicação ajustada, as nossas inquietações relacionais, baixando a tensão e diminuindo a probabilidade de respostas desajustadas (e.g., violência e controlo).

Apesar de não ser uma tarefa fácil – essa coisa que se chama de comunicação ajustada – é uma tarefa possível!

Salvaguardamos no entanto, nesta fase do texto, que a experiência humana – a forma como experienciamos a vida – é muito complexa e diversa, imperando a necessidade de flexibilidade e empatia perante todo o tipo de respostas. Sujeitas a experiências e contextos diferentes, todas as pessoas serão necessariamente diferentes (para não falar dos fatores internos que nos diferenciam também!), e portanto, serão funcionais respostas diferentes para pessoas diferentes, e isso não tira a legitimidade de cada uma dessas respostas.

Que respostas adequadas podem ser então sinónimo de conflito saudável?

A base de uma resposta adequada passará, se estivermos em relação direta com outra pessoa, por uma comunicação funcional. Essa será, de forma muito simples, aquela que une as pessoas, ao invés da comunicação disfuncional, que afasta as pessoas. E deixemos aqui também a ideia de que é impossível não comunicar! Seja através da comunicação verbal, não-verbal ou para-verbal, nós estamos sempre a transmitir algo à outra pessoa. O silêncio, por exemplo, pode comunicar indisponibilidade, angústia, dúvida, tristeza…

Vamos encher 2 sacos

E pegando na indisponibilidade do outro… Se considerarmos que há circunstâncias em que não há abertura ou possibilidade de construir caminhos conjuntos, é útil que possamos aprender a ceder e a deixar cair algumas discussões. Por exemplo, para alguns pais divorciados em conflito (não resolvido) é uma mais-valia ganhar esta competência de aprender a deixar alguns “desencontros”. Podemos imaginar que temos dois sacos, o saco das coisas que importam e o saco das coisas que não importam! Valerá a pena a minha resistência ao assunto que está em cima da mesa? Ou não? Talvez eu não abdique de passar o meu aniversário com a minha filha, mas talvez eu possa abdicar de ir com ela às compras para o início das aulas. E é este exercício tão válido para pais divorciados em conflito, como para amigos às avessas, ou colegas que têm formas de trabalhar diferentes, e assim por diante!

No fundo importa fazer um trabalho de autoconhecimento, que nos possibilite perceber verdadeiramente quais as nossas necessidades e quais são as coisas das quais não abdicamos, e quais as coisas que não precisamos assim tanto de ter ou de ganhar. Se é através do nosso mundo interno que nos entendemos pessoas, é natural que seja difícil abdicar das nossas ideias e posicionamentos, mas será que todas elas são identitárias? Será que todas elas são nossas? Será que elas respondem mesmo às nossas necessidades?

E não esqueçamos que há cedências e falsas-cedências. Uma cedência será definida por um abdicar da nossa posição/vontade que não negligencie o nosso próprio bem-estar. Verdadeiramente, abdicar da nossa posição implica não cobrar ao outro as possíveis consequências das situações (o que tendencialmente não acontecerá quando estamos em paz com a cedência e quando não colocámos em causa alguma das nossas necessidades). Será talvez diferente, eu ceder e ir jantar ao mexicano com a minha parceira/o ao invés do indiano, ou ceder e emigrar com ela/e…

O meu, o teu ou o nosso caminho

As cedências são também possíveis quando a outra pessoa ou pessoas estão disponíveis e têm abertura para conversar. Se não vamos pelo meu caminho A, nem pelo teu caminho B, podemos sempre ir pelo nosso caminho C. Ambos cedem e constrói-se em conjunto uma solução alternativa que ainda não tinha sido pensada. Também os pais zangados e amigos às avessas podem beneficiar deste tipo de cooperação.

E agora, algumas dicas (sem nunca esquecer que somos todas pessoas diferentes, e coisas diferentes resultam com pessoas diferentes!):

Visto assim, o conflito nem sempre é sinónimo de choque. Há conflitos que são a melhor oportunidade para crescer.

Maria Dias
Psicóloga Clínica; OP n.º 25648

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