A cada 4 segundos morre uma pessoa com fome. Onde? Algures no mundo. Hoje a fome até pode estar na porta ao lado. A fome está cada vez mais solitária, perdemos o hábito de tomar conta do outro

“Se me permitem ser franco, a fome acontece quando há um desrespeito básico pela decência e pela dignidade da vida humana,” presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), Peter Maurer, Evento de Alto Nível sobre a Prevenção da Fome e Resposta, Assembleia Geral das Nações Unidas, 72ª sessão

Na 76. ª Assembleia Geral das Nações Unidas, voltou-se a falar de fome. Os líderes de mais de 200 organizações não-governamentais denunciaram que a cada quatro segundos morre uma pessoa por falta de comida. Quatro segundos…

Um mês depois, foi notícia em Portugal que os supermercados estavam a colocar alarmes em produtos alimentares básicos, como latas de atum ou garrafas de azeite. Os furtos estariam a aumentar, porque as pessoas não conseguiam sobreviver com o ordenado ou com uma pensão.

Hoje, a fome não está só algures num país muito distante. A fome pode estar na porta ao lado da nossa.

E quando a fome chega, resta o quê? Nada!

A fome tira-nos a dignidade. Faz-nos pequenos e inferiores. Tira-nos a força e a capacidade de pensar. Não encontramos portas de saída ou respostas, mas sabemos que logo à noite o prato estará vazio.

A fome instala-se aos poucos. Começa com a carência de nutrientes, proteínas e calorias. Ficamos tontos, fracos e os batimentos cardíacos desaceleram. No limite ficar de pé pode ser uma missão impossível e o sistema imunológico começa necessariamente a falhar. Depois, contam-se as baixas e a cada quatro segundos dizem-nos que (algures no mundo) morre uma pessoa por falta de comida.

A fome continua a ser uma doença que a Medicina ainda não conseguiu curar e que a inteligência artificial nunca irá assimilar. O que fizemos para aqui chegar? Afastámo-nos e perdemos o hábito de tomar conta do outro.

A fartura “democratizou-se” e até a fome ficou mais solitária. Uma sardinha já não se divide por três.

António Travassos
(Médico, Oftalmologista; OM n.º 15373/C-7956)

4 Responses

  1. Parabéns por mais um belo texto.

    Que essa juventude se prolongue por muitos e muitos anos nesse brilho de olhar.

    Um grande abraço

  2. Que dizer deste Mago, salvou-me uma cegueira em 2002 (retina) 60% visão que
    risco de cegueira olho direito de uma intervenção mal feita noutro local e ao olho direito catarata em 2011 um êxito total
    Presentemente a m/mulher está entregue a este SENHOR
    , que suponho vai ser mais um êxito , BEM HAJA!!!

  3. Há esqueci-me que belo texto a altura da personagem humana deste extraordinário médico de oftamologia

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